quinta-feira, agosto 27, 2026

TER MEMÓRIA PRECISAMOS…..”

TER MEMÓRIA…..” Há pedras no caminho de todos nós. Umas são pequenas, quase impercetíveis, e obrigam-nos apenas a abrandar o passo. Outras são enormes, surgem de repente e parecem impedir-nos de continuar. Durante muito tempo, talvez pensemos que a vida seria mais fácil se o caminho fosse liso, sem obstáculos, sem perdas, sem desilusões. Mas são precisamente as pedras que nos obrigam a olhar para onde pomos os pés. Ensinam-nos a escolher, a resistir, a cair e, sobretudo, a levantar-nos.” (Helena Sacadura Cabral) Recorrentemente, ouve-se dizer no espaço mediático, invariavelmente por comentadores de direita, que o PS teria sido “O” responsável pelos três pedidos de assistência financeira ocorridos até hoje, depois da Revolução de 1974.” Sucede que uma tal afirmação não passa de uma inequívoca exibição de má fé, uma falsidade! Uma vez que não acreditamos que possa resultar simplesmente de mera ignorância. Em todo o caso, porque há quem possa ser enganado por esses comentadores e políticos da extrema direita, que peroram nas TVs sem contraditório, convém esclarecer a verdade. Assim, desde 1974, Portugal formulou três pedidos de assistência financeira, a saber, em 1977, 1983 e 2011. Do mesmo modo que não é por o galo cantar que o sol nasce, vejamos então quais as responsabilidades dos governos de então nesses três pedidos. Desde logo, em 1977, o primeiro pedido de assistência financeira ocorreu na vigência do I Governo Constitucional, empossado em 1976. Ou seja, esse pedido é formulado pelo primeiro Governo legitimado democraticamente que surge na sequência das primeiras eleições legislativas, após a aprovação da Constituição de 1976. Antes desse I Governo Constitucional, desde abril de 1974, o país havia sido governado sucessivamente por seis governos provisórios. Foi, pois, a necessidade de correção dos desequilíbrios decorrentes do período revolucionário que motivou essa assistência financeira, e ela é feita pelo primeiro executivo a governar o país nas condições de legitimidade democrática e estabilidade institucional imprescindíveis para merecer a confiança dos credores internacionais. A “responsabilidade” por essa intervenção - leia-se, os desequilíbrios que a motivaram - não é assim do I Governo constitucional, mas obviamente do período, nomeadamente revolucionário, que o antecedeu. Sustentar o contrário é simplesmente desconhecer a história. Isto posto, diga-se que é igualmente falacioso, se não mais, pretender imputar ao IX Governo Constitucional a responsabilidade por um pedido de assistência, em 1983, quando esse pedido ocorre quase imediatamente após a posse desse Governo. Ora, quando tal sucede, é óbvio que a responsabilidade por isso só pode ser imputada aos Governos que o antecederam. Em 1983, foi exatamente isso mesmo que sucedeu: Mário Soares pediu assistência financeira quando o IX Governo estava em funções há apenas dois meses, tendo sucedido a três anos de (des)governação da Aliança Democrática (PSD/CDS), concretamente aos VI, VII e VIII Governos Constitucionais. O IX Governo tomou posse a 9 de junho de 1983 e o pedido de assistência financeira foi formalizado a 9 de agosto desse ano. Como qualquer pessoa minimamente inteligente e de boa fé reconhecerá, a necessidade de assistência financeira não surgiu desses escassíssimos dois meses do IX Governo, mas sim da necessidade de corrigir o descalabro financeiro herdado dos três Governos da AD que o precederam, chefiados por Sá Carneiro (VI Governo) e Pinto Balsemão (VII e VIII Governos), respetivamente. Já quanto à intervenção da Troika, em 2011, convém recordar que ela aconteceu porque o Plano de Estabilidade e Crescimento apresentado pelo XVIII Governo Constitucional foi então chumbado no Parlamento. Foi isso que impediu que o reajuste da nossa economia fosse feito sem intervenção formal da Troika (como, por exemplo, aconteceu aqui ao lado, em Espanha). Em termos nominais, o montante da dívida portuguesa era quase irrelevante, quando comparada com outros países europeus (ela era relevante em percentagem do nosso PIB, não em termos absolutos). Por isso mesmo, a intervenção da Troika não era então nem inevitável, nem sequer querida por muitos, a começar pela chanceler alemã que o verbalizou mesmo, discordando então publicamente de Passos Coelho, líder do PSD, que mentiu . Foi a vontade de poder de uns poucos que, fazendo chumbar o PEC, obrigou a essa intervenção em 6 de abril (depois de, em 23 de março, o PEC ter sido chumbado por uma mentira do PSD de Passos Coelho). Ou seja, antes do chumbo do PEC, teria sido possível fazer correções - que o Governo de então propusera e que a própria Merkel reconhecera serem “ajustadas e ambiciosas” - sem intervenção formal da Troika. Depois do chumbo do PEC, e por causa disso, é que o resgate passou de evitável a inevitável. Ou seja, foi o chumbo do PEC que criou as condições políticas que tornaram inevitável a intervenção formal da Troika e, com isso, o sofrimento de muitos portugueses que poderia ter sido evitado. Em jeito de adenda, convém ter também presente que é em 2019, com o PS, que o país obtém o primeiro excedente orçamental da nossa democracia e, em 2023, último ano completo de governação do PS - já após a recuperação da pandemia -, logra mesmo o maior excedente orçamental até hoje (+1,2%) e Portugal deixa enfim de figurar no inglório pódio das economias mais endividadas da Europa. Mas desses resultados, e de outros igualmente positivos, já não nos falam os tais comentadores nas TVs sem contraditório. Talvez por o contraste com o actual governo não resultar lisonjeiro para este……(já que o Montenegro aprendeu com Passos Coelho a mentir- e há portugueses que acreditam!) Talvez aquilo que chamamos de irrelevante seja apenas aquilo cujo valor ainda não conseguimos perceber! Estas “memórias” que aqui menciono, é uma maneira de procurar e destacar a importância do silêncio como forma de sabedoria e maturidade na vida. Penso que para certas pessoas as palavras não tem valor, nesta circunstância o silêncio pode ser uma escolha, opção, certa e sábia. A fake news mais perigosa não é a mentira. É a verdade truncada. Sentimos que já não sabemos em que acreditar?

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