terça-feira, agosto 29, 2017

O SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTES DE PASSAGEIROS (XIX Parte (b) - continuação)

O SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTES DE PASSAGEIROS 
(XIX Parte  (b) - continuação)

  “Os cidadãos começam a perceber que informação é poder


UM MEMORANDO PROSPECTIVO SOBRE O SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTE DE PASSAGEIROS

(continuação)

Muitas vezes, o que aparentemente é um fracasso, pode ser exactamente a razão de um grande sucesso futuro“, (autor desconhecido).



1.      ALGUNS PRESSUPOSTOS BASE - CONDIÇÕES PRÉVIAS À ELABORAÇÃO DO “PLANO DE NEGÓCIOS “E DO “CONTRATO DE CONCESSÃO”


1.1.     Fusão da Soflusa com a Transtejo/Encerramento total da actividade da Soflusa (“No plano de reestruturação organizacional, destaca-se a fusão entre a Transtejo e a Soflusa e o redimensionamento da estrutura face à previsível redução da actividade”)(in Bases estratégicas para a preparação dos IPG´s([1])

A Soflusa foi criada em 1993, pela CP, com o objectivo de garantir a ligação a entre a estação Sul e Sueste e a estação do Barreiro, articulando desse modo a rede ferroviária a Norte e a Sul do estuário do Tejo. Com a criação do “comboio na ponte”, a mesma “extinguiu” o objecto para que foi criada e em 2001, e em totalidade do seu capital social foi adquirido pela Transtejo. Pelo despacho 2058-A/2001 - SETF de 28.12.2001 o secretário de Estado do Tesouro e Finanças determinou a sua  integração na Transtejo, “numa perspectiva de desenvolvimento e optimização do transporte fluvial de passageiros e de gestão da frota”, tendo sido concedido à Transtejo para a “cobertura financeira desta operação cerca de 9,2 milhões de eurosNuma auditoria, o Tribunal de Contas([2])sugere-se   ao Governo que proceda à fusão destas duas empresas, de modo “a extinguir as ineficiências decorrentes da manutenção”. De facto até esta data não foi cumprida tal determinação.

No Plano de Actividades para 2012 está previsto no plano da reestruturação organizacional, destaca-se a fusão entre a Transtejo e a Soflusa”, “ a concretizar no 1º semestre de 2012” que implicará o despedimento de 133 trabalhadores, (117 em Junho de 2012 e os restantes em Out, Nov e Dez. 2012) com um valor de indemnizações estimado em 1,78 milhões de euros([3]). 
Não pode merecer a nossa concordância esta medida, que nos parece inadequada e potenciadora de gerar enorme conflitualidade e não ser uma estratégia correcta, para além de que o valor estimado para as indemnizações ser completamente irrealista. Para aquele número de trabalhadores as indemnizações legais e mínimas, devem ser estimadas entre o 3 e 3,5 milhões de euros. O que aliás se confirma pelos próprios dados previsionais. O reajustamento das necessidades da empresa em recursos humanos, não pode nem deve situar-se apenas e só na área de exploração (mestres, maquinistas e marinheiros), mas principalmente nas restantes áreas de carácter de apoio administrativo, dependendo a sua dimensão das opções da organização do trabalho na empresa.

Explicitamos,  nomeadamente entre outras medidas:

a)   Justificamos a extinção da SOFLUSA, (encerramento definitivo), com a inexistência legal da sua actividade por um lado – a Transtejo detêm em exclusividade “ a competência e responsabilidade de organização e gestão do serviço de transporte fluvial no Tejo, bem como a criação e manutenção de todas as condições para o efeito necessárias, designadamente as de navegabilidade e de segurança indispensáveis para o exercício da actividade a prosseguir, com vista à satisfação do interesse público a seu cargo” (licença de ocupação 594 de 6 de Janeiro 1978 – processo 992/GP – Administração Geral do Porto de Lisboa);

b)       E por outro, com a necessidade de caducidade dos contratos de trabalho (cf. nº 3 do artº 346º do Código de Trabalho), o que implica também a caducidade do respectivo Acordo de Empresa ([4]) e dos restantes “contratos comerciais” eventualmente existentes. Evitando-se deste modo a conflitualidade, dado os regimes diferentes nos Acordos de Empresa resultante da aplicação do artº 285º do Código do Trabalho – cessão da actividade e transmissão da mesma para a Transtejo;

c)      A necessidade de reajustamento do número de trabalhadores, deve privilegiar-se a negociação voluntária e de mútuo acordo, e as indemnizações devem ser totalmente assumidas pela actual entidade tutelar, cujo valor estimamos entre os 3/4milhões de euros, sendo que o período máximo para a efectivação deste reajustamento não poderá ultrapassar os 30 dias, seja qual for a opção tomada;

d)      Anote-se que há que considerar ser distinto o quadro jurídico-laboral resultante da fusão das empresas, que implicaria a transmissão para a Transtejo dos contratos de trabalho e do seu regime jurídico laboral constante do acordo de empresa (Soflusa), ou da extinção/cessão da respectiva actividade que implica a caducidade de todos os contratos de trabalho e do regime do acordo de empresa (Soflusa). Na realidade o actual regime do acordo de empresa na Soflusa, condiciona toda a actividade por permitir que apenas entre 40%/50% do tempo útil seja efectivo na prestação do trabalho.

e)      A nova “empresa a criar para gestão da concessão do serviço de transporte fluvial de passageiros no rio Tejo”, deverá admitir parte dos trabalhadores, em especial mestres e maquinistas, através da “criação dos postos de trabalho respectivos na nova organização e estrutura laboral própria”.

f)       Permite a introdução e redefinição  reestruturação no sistema de organização do trabalho ([5]) (organização dos tempos de trabalho, horários sincopados, polivalência funcional e controlo da efectividade da prestação do trabalho, de modo a combater eficazmente a proliferação do denominado “trabalho extraordinário), que conduz a uma redução efectiva dos custo com pessoal;

g)       Permite a introdução da diferenciação e da flexibilização - como forma de potenciar (melhorar o aproveitamento dos recursos humanos e meios técnicos disponíveis, uniformização de procedimentos conducentes a uma efectividade e controlo do trabalho) de modo a garantir a sustentabilidade dos postos de trabalho adequados aos interesses da prestação serviço de transporte fluvial de passageiros. ([6]) ;

h)       Reestruturação/reorganização do acordo colectivo de trabalho no âmbito da negociação colectiva, com especial incidência na redução das variáveis de incidência salariais, de modo a uma melhoria significativa no controlo da efectividade do tempo de trabalho; (o actual regime laboral vigente à luz do acordo de empresa na Soflusa conduz a que da sua aplicação resulte apenas cerca de  40%/50% da efectividade dos tempos de trabalho o que provoca uma duplicação do número de trabalhadores e um aumento de custos com pessoal de cerca de 40%);

i)        A introdução de um sistema de triangulação, nomeadamente entre o Terreiro do Paço - Seixal - Barreiro, melhorando a oferta “fora das horas de ponta”, redução significativa dos custos, (pessoal, manutenção e combustível) e aumentando as receitas próprias aumentando o número de clientes([7]):

j)        A extinção da Soflusa implica não só a redução do número de trabalhadores (estimamos em cerca de 80, (dos quais 50 na área marítima) dos actuais adstritos à Soflusa) como a redução do número de navios a operar naquela linha, (dos actuais 9 para 5 ou 6), o que reduz significativamente os custos de exploração daquela ligação ao Barreiro;

k)      A opção de incluir a ligação ferroviária entre o Barreiro e Setúbal na concessão da Transtejo, constitui uma boa opção estratégica como um contributo significativo para a melhoria da ligação do Barreiro ao Terreiro do Paço, no aumento de passageiros e receitas, sem necessidade de aumento dos custos.


1.2.    PERÍODO DE TRANSICÇÃO, DEFINIÇÃO DO MODELO A CRIAR E ALGUMAS CONDIÇÕES PRÉVIAS

No contexto actual e do conhecimento da organização estrutural do serviço publico de transporte fluvial de passageiros, e a ser apenas e só, privatizada a “concessão da gestão do respectivo serviço”, o que obrigará, necessariamente,  a que a utilização dos restantes meios, venham a ser adquiridos, por outra forma contratual – aluguer e arrendamento – para além de ser garantida a transmissão da concessão da “licença para ocupação e uso privativo dos bens imóveis do domínio público hídrico e do domínio privado”, nos mesmos termos em vigor e “a exclusividade, competência e responsabilidade de organização e gestão do serviço de transporte fluvial no Tejo”.([8]) A saber, nomeadamente:

·         Terminais Fluviais;
·         Parques de estacionamento;
·         Pontões;
·         Navios;
·         Canais de navegação, manutenção e dragagens etc.
·          
Para além de ser garantido à empresa gestora a cedência, para exploração comercial por terceiros, os bens que entender disponíveis, de modo a potenciar o seu aproveitamento de apoio à sua actividade, bem assim como a prevalência das normas do contrato de concessão sobre os regulamentos da APL.
           
a)      Assim sugerimos a criação de uma empresa com o objecto da gestão do transporte fluvial no rio Tejo e as actividades complementares, por cedência contratual da Transtejo, ficando adstrita à mesma o património, que seria cedido por arrendamento e aluguer; A cedência do nome TRANSTEJO pode vir a ser considerado desde que se separe o SERVIÇO DE EXPLORAÇÃO, (incluindo todas as concessões e contrato comerciais), do património, por exemplo a criação de uma empresa TRANSTEJO- Transportes Fluviais SA!!!!!, com o  “objecto da gestão do transporte fluvial no rio Tejo e as actividades complementares, comerciais e outras”;

b)      Uma das hipóteses seria a adopção de um “período de transição” (por exemplo de Abril a 30 de Junho se o inicio da concessão for 1 de Julho de 2012) de modo a permitir a normalidade da substituição do modelo de gestão da mesma, com a “nomeação de uma administração” para o período transitório e adopção das politicas e medidas acordadas (identificação do património a transmitir, encerramento definitivo da Soflusa, negociação das indemnizações ao pessoal desnecessário, análise e avaliação da frota e meios de apoio (terminais, pontões canais de navegação etc);

c)      De acordo com o nosso conhecimento da actividade, onde a operação fluvial é determinante, será adequado uma previsão de 3 a 6 meses para a implementação das medidas de reajustamento e reorganização do trabalho – recursos humanos, meios técnicos operativos e reajustamento das ligações, conjugado com um novo sistema de organização do trabalho;

d)      Sugerimos um “período da concessãoentre os 15/20 anos, precedido de um período de carência de pelo menos, dois anos  a três anos, (com dispensa de pagamento de qualquer verba a titulo de aluguer ou renda), dada a necessidade de efectivar alguns investimentos de manutenção e recuperação de navios([9]), pontões, terminais, parques de estacionamento e de dragagens nos canais de navegação etc; A proposta sugestão deste período 12/15 anos fundamenta-se com a necessidade de rentabilização de eventuais investimentos;

e)      Deverá ser assegurado a garantia, a curto prazo, (até finais de 2012) de que a repartição das receitas dos passes intermodais ([10]) que se processa de acordo com as quotas que foram determinadas a partir de um “inquérito” realizado em 1989, quando ainda nem sequer eram utilizados os catamarans, nem a Soflusa se encontrava no sistema, sejam devidamente ajustadas, à nova realidade resultante da alteração do modelo de gestão da actividade.



Para vencer, não podemos aceitar o mais ou menos. Temos que trabalhar em direcção a excelência”, (autor desconhecido)

(continua)



[1]   Instrumentos Previsionais de Gestão de 2012, aprovados pelo CA Transtejo/Soflusa em 15.12.2011
[2]   Auditoria ao Grupo Transtejo – Tribunal de Contas- Dezembro de 2010
[3]  Estimativas de Gastos com Pessoal, Massa Salarial e Custo do Factor Trabalho 2012-Instrumentos Previsionais de Gestão - 2012
[4]   Acordo de Empresa celebrado entre a Soflusa e os sindicatos signatários, publicado no B.T.E., Ia serie, no 41 de8 de Novembro de 2001, com as alterações introduzidas pelo Acto de Gestão de 2003 e B.T.E., Ia serie, n.o 45, de 8 de Dezembro de 2005
[5]  Medida estratégica que deverá ser extensiva a toda a empresa;
[6]  Aliás, é no factor humano que surgem os grandes problemas de gestão, pois não é admissível por mais tempo, continuar a “ignorar” os novos métodos e sistemas da organização do trabalho nestas empresas; nomeadamente a sua caracterização e “anulação dos tempos designados como “trabalho extraordinário”, que apenas e só escondem a “incapacidade de gestão dos tempos de trabalho e constituem, claramente “salários subterrâneos” ou ocultos;
[7]  Este modelo de triangulação conjugado com um sistema de horários sincopados ( em que a mesma equipa, que opera, de manhã é a mesma que opera de tarde), deve ser extensivo a outras ligações, quer já existentes ou a criar , nomeadamente Cais do Sodré,Porto Brandão, Trafaria ou Barreiro, Seixal, Parque das Nações, ou ainda Montijo Parque das Nações.
[8]  Que deve merecer uma atenção muito especial e aprofundada na negociação do contrato de concessão.
[9]  “Outro dos dados apontados é que os oito navios mais jovens da Transtejo, com idade média de 13 anos, foram os que apresentaram, entre 2007 e Junho de 2010, as maiores taxas  inoperacionalidade, 41 por cento, e que mais custos de manutenção geraram, 5 milhões de euros do total de 9,3 milhões despendidos com toda a frota de 23 navios.” (idem Tribunal de Contas – 2010)
[10]  “Esta instituição(O Tribunal de Contas) critica o facto de a repartição das receitas dos passes multimodais pelos diversos operadores de transportes da região de Lisboa, com base nos resultados de um inquérito realizado em 1989, se encontrar desfasado da realidade, uma vez que não reflecte as alterações, entretanto ocorridas”.

segunda-feira, agosto 28, 2017

O SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTES DE PASSAGEIROS (XIX Parte (a)- continuação

O SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTES DE PASSAGEIROS 
(XIX Parte (a)- continuação)

  “Os cidadãos começam a perceber que informação é poder


UM MEMORANDO PROSPECTIVO SOBRE O SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTE DE PASSAGEIROS

(Publica-se a primeira parte de um “memorando” que se destinava a um melhor “apetrechamento” da negociação de um “previsível contrato de concessão do serviço público fluvial de transporte de passageiros no rio Tejo)


ANEXO: UMA PROSPECTIVA DO SERVIÇO DE TRANSPORTE FLUVIAL NO RIO TEJO (satisfação de um pedido de uma entidade privada que pretendia fazer um investimento no serviço publico de transporte de passageiros no rio Tejo – Fevereiro de 2012)

A verdadeira dificuldade não está em aceitar ideias novas, mas escapar das antigas.” (John Maynard Keynes)



“MEMORANDO


 PROPOSTA DE SUGESTÕES PARA “BUSINESS PLAN” E “CONTRATO DE CONCESSÃO” DE APOIO Á NEGOCIAÇÃO DUMA POSSIVEL CONTRACTUALIZAÇÃO (Fev. 2012) ([1])


Após o nosso encontro/reunião de 14 de Fevereiro de 2012, entendi remeter-lhe algumas “SUGESTÕES”, não só numa perspectiva de enquadramento de eventuais contributos, com vista à construção e elaboração do “BUSINESS PLAN” e da proposta de “CONTRATO DE CONCESSÃO”, tendo como base, dados já publicados([2]), mas também dos ainda não publicados e de conhecimento restrito,  de responsabilidade da actual administração da empresa, complementados com alguma informação recolhida junto de técnicos do Grupo Transtejo e, deste modo um melhor apetrechamento de instrumentos que “facilitem” a respectiva negociação.

Decorrendo deste contexto, ressalva-se desde já que:

·         A provável não fiabilidade de alguns dos elementos, que podem “criar”algumas dificuldades de extrapolação para o futuro e “gerar enviesamentos significativos nas previsões”;
·         Como consequência, ressalva-se deste modo, a necessidade de ajustamentos e revisão das previsões, logo que conhecida a realidade objectiva da actividade.

Assim, atendendo a esta realidade, embora de modo sintetizado, vamos procurar uma abordagem que possa enquadrar sobretudo, uma diferente aposta, com uma diferente visão estratégica para a actividade do serviço de transporte fluvial de passageiros, em contraponto, às “bases estratégicas” constantes no Plano de Actividades para 2012, propostos e aprovados pelo actual administração do Grupo Transtejo([3]). 
Conforme podemos verificar nesse instrumento previsional, para além de não apresentar medidas que permitam alterar a situação de desequilíbrio financeiro, e inverter a situação progressiva de agravamento do endividamento, que urgia alterar num olhar diferente, enquadrável numa visão empresarial com responsabilidades sociais, mas também onde prevaleça uma maior racionalização dos meios e recursos operacionais de modo a poder potenciar as disponibilidades dos recursos humanos e técnicos, numa actividade que detêm enormes potencialidades e vantagens competitivas sobre os outros modos de transporte de passageiros, o que tem como consequência que as medidas e acções propostas para 2012, conduzem a um agravamento da situação financeira, como retratam os próprios dados previsionais, sendo algo estranho que nas suas “bases estratégicas”, esteja formulado “como principio geral, a empresa considerou medidas de optimização por forma a atingir um EBITDA tendencialmente nulo, meta que em 2012 não será concretizável”([4]), faz-nos  lembrar e reproduzir a célebre máxima, segundo a qual "é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma".([5]) Isto é, parte-se do principio de que o futuro será idêntico ao passado.

Daqui resulta algumas considerações gerais, em especial nas áreas seguintes:

  • Actual situação de desequilíbrio financeiro do grupo Transtejo e respectivo endividamento;
  • Fusão da Soflusa com a Transtejo/Encerramento total da actividade da Soflusa;
  • Reestruturação/Reorganização do modelo empresarial e da actividade do serviço de transporte fluvial de passageiros no Rio Tejo;


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES GERAIS

1.      SITUAÇÃO DE ENDIVIDAMENTO DA EMPRESA ([6]) ([7])

O grupo TRANSTEJO apresenta uma posição financeira desequilibrada com um passivo de 192  milhões de euros, e encargos com juros de aproximadamente 4,7 milhões de euros.Relatório e Contas de 2010 .” (in Diário da República, 1.ª série — N.º 216 — 10 de Novembro de 2011 pág.4802).

Conforme podemos verificar no Plano de Actividades para 2012 ([8])   em 31 de Dezembro de 2011 o PASSIVO do Grupo Transtejo atingiu cerca de 209,7 milhões de euros. (PASSIVO não corrente (médio/longo prazo de cerca de 116 milhões de euros) e o PASSIVO corrente (curto prazo), de cerca de 93,5 milhões de euros.). No mesmo documento previsional, podemos constatar que  as respectivas medidas e estratégia proposta pelo CA do grupo Transtejo conduzirá a que no final de 2012, o PASSIVO deverá atingir cerca de 218,7 milhões de euros (uma agravamento de mais cerca de 9 milhões de euros em relação a 2011, cerca de + 4,3%). Com uma estrutura de PASSIVO não corrente (médio/longo prazo de cerca de 112 milhões de euros) e o PASSIVO corrente (curto prazo), de cerca de 106 milhões de euros.
Podemos também verificar que o modelo de financiamento,  assentou ao longo dos exercícios no recurso ao endividamento bancário como forma de financiar os défices recorrentes de tesouraria e parte do plano de investimentos, não coberto por apoios financeiros do Estado . Isto é no Médio e Longo Prazo a dívida  do Grupo Transtejo, decorre da consolidação da dívida de curto prazo e da cobertura financeira do investimento, cingindo-se a um financiamento sob a forma de empréstimo obrigacionista contratado em 2007, no montante de 55 milhões de euros.([9]) As obrigações ao abrigo deste empréstimo foram emitidas em 1 de Fevereiro de 2007, com maturidade de 10 anos, e taxa de cupão indexada à Euribor a 6 meses acrescida de um spread a 2 pontos base anuais. O reembolso das obrigações será efectuado integralmente na data de vencimento, 1 de Fevereiro de 2017. O financiamento de curto prazo da Empresa é constituído fundamentalmente por contas-correntes caucionadas (CCC) e por descobertos bancários (DB) contratados com diversas instituições financeiras nacionais, o que nos leva a concluir que em 31 de Dezembro de 2011 o endividamento bancário de curto prazo atinge cerca de 100 milhões de euros!

RESUMINDO  – Com um endividamento bancário de cerca de 155 milhões de euros, sendo que as necessidades de financiamento determinadas pelo Tribunal de Contas (Dez. 2010) era de cerca de 165 milhões de euros, a previsão para 2012, conforme podemos verificar, nos Instrumentos Previsionais de Gestão 2012, elaborados e de responsabilidade da actual administração do grupo,  ( esteja previsto como suprimentos recebidos do accionista 60,9 milhões de euros e  parte restante obtido por financiamento  crédito bancário de 41 milhões de euros), isto  é a previsão das necessidades de financiamento da actividade serão cerca de 100 milhões de euros).  
Numa actividade onde os Custos com pessoal, CMVM e Fornecimento e Serviços Externos atingiram, uma média anual, dos últimos 5 anos (2007-2011)  mais de 34,7 milhões de euros, e no mesmo período com encargos financeiros, em média de 4,7 milhões de euros, e com receitas da actividade de apenas cerca de 14,1 milhões de euros (média, no mesmo período), gerou um EBITDA negativo (média, mesmo período) de mais de 8,6 milhões de euros e um EBIT negativo de mais de 12,1 milhões de euros, sendo atribuídas indemnizações compensatórias, em média no mesmo período, anual de cerca de 11 milhões de euros e cujas medidas propostas para 2012, prevêem uma agravamento da situação da respectiva posição financeira desequilibrada, não pode ser só explicável, segundo melhor conhecimento desta matéria, apenas e só com uma situação de “má gestão de meios e recursos” – entendível como um claro desconhecimento e incapacidade de aplicação de instrumentos de gestão e organização de processos de trabalho e de uma completa ausência de responsabilização, desorganização laboral e desierarquização da estrutura organizativa, com especial incidência a partir do 2º semestre de 2002, mas que na realidade deve ser imputável, em especial ao “modelo de gestão e organização das empresas de serviço público de transporte fluvial de passageiros”,  que pode ser considerado inadequado  (“caducado”) face aos princípios e estratégia de gestão e organização duma unidade empresarial! 

O grave problema  assenta fundamentalmente na ausência de uma estratégia e de medidas de políticas (comerciais e laborais), que conduzam a alterações estruturantes em especial na organização laboral (horários de trabalho, efectividade do tempo de trabalho, sistema remuneratório, polivalência funcional), bem assim como a  reestruturação/actualização/reajustamento do sistema de repartição das receitas dos passes intermodais([10]) e promover hábitos e usos dos serviços de transporte de passageiros, pela via fluvial, que sirva os interesses dos clientes (rapidez, segurança, comodidade e preço), que as sucessivas administrações não conseguiram implementar.
Salvo melhor opinião e conhecimento desta actividade a opção de “reduzir de custos operacionais  com medidas de redução de serviços e despedimento de trabalhadores”, (embora seja reconhecido a existência de trabalhadores em excesso) não conduz à sustentabilidade da actividade, não reduz os custos e gera ainda um agravamento da situação financeira do grupo Transtejo, para além da “manutenção” de instabilidade sócio-laboral que torna impeditivo as alterações adequadas e necessárias à sustentabilidade da actividade. Aliás como se pode constatar no documento referido.

Finalmente a situação de desequilíbrio financeiro do Grupo Transtejo terá que ser necessariamente enquadrado no quadro de solução para o endividamento do sector empresarial do estado e totalmente avocada e assumida pelo Estado no âmbito da dívida pública.

No entanto, chamamos a atenção que, em média anual (2007-2011), o deficit “do financiamento da actividade” tem sido de cerca de 17,4 milhões de euros, incluindo os encargos financeiros de cerca de 4,7 milhões de euros.  Anotamos que em média, tem sido concedido 13 milhões de euros de subsídios à exploração (indemnizações compensatórias e mais outros subsídios).  Neste período o EBITDA, negativo médio situou-se nos 8,6 milhões de euros.
A partir destes dados, com a ressalva já anteriormente referida, podemos constatar que as necessidades de financiamento da actividade, em termos médios, se situa nos 30,3 milhões de euros/ano!

Dados a ter em conta na proposta de negociação do “contrato de gestão”.

(continua)



[1]   Com base em dados da própria empresa e da Direcção Geral do Tesouro e Finanças
[2]   O último Relatório e Contas aprovado foi o de 2009
[3]   O grupo Transtejo é constituído pela Transtejo e pela Soflusa, tendo como missão a prestação do serviço publico de transporte fluvial integrado no sistema global da área Metropolitana de Lisboa, assegurando o transporte público entre as duas margens do Tejo” ( in D.R. , 1ª serie , nº216 de 10 de Novembro de 2011,pág. 4802)

[4]  Cf. consta “Bases estratégicas para preparação dos IPG´s 2012”
[5]     “ O Grupo Transtejo, composto pelas empresas Transtejo e Soflusa, transporta anualmente cerca de 24 milhões de passageiros, possui 35 embarcações e cerca de 530 trabalhadores.”
[6]   A Soflusa é participada a 100% pela Transtejo, o que implica que os dados sejam consolidados
[7]  “Um relatório do Tribunal de Contas revelou que a Transtejo e a Soflusa estão em falência técnica e que em 12 anos as empresas perderam quase metade dos utentes. De acordo com o documento, citado pela Lusa, vão ser necessários 167 milhões de euros para recapitalizar o grupo Transtejo, composto pelas empresas Soflusa, que faz a ligação fluvial entre Barreiro e Lisboa, e a Transtejo, responsável pelas restantes ligações no rio Tejo.
  (Janeiro 2011)(Auditoria ao Grupo Transtejo – Tribunal de Contas- Dezembro de 2010). 

[8]  Instrumentos Previsionais de Gestão de 2012, aprovados pelo CA Transtejo/Soflusa em 15.12.2011

[9]      Gestão de Risco Financeiro (55.000.000 euros). Ainda em 2007, sobre o empréstimo obrigacionista contraído junto do Depfa Bank, a Empresa contratou, duas operações de cobertura de risco de taxa de juro.   A Transtejo alargou o prazo de cobertura de risco de taxa de juro até Fevereiro de 2013, fixando em 3,75% a taxa máxima que poderá ser obrigada a pagar
[10]  A repartição com as restantes operadoras de transporte público da receita dos passes intermodais, que representava, em 2009, 34% dos proveitos da venda de títulos das empresas, processa-se de acordo com as quotas resultantes de um inquérito realizado em 1989, o que, poderá estar a prejudicar as empresas do Grupo Transtejo, face a outras operadoras com perdas de passageiros mais acentuadas.