sexta-feira, setembro 18, 2020

“NENHUM HOMEM É UMA ILHA”. (John Donne)

 NENHUM HOMEM É UMA ILHA”.  (John Donne)

 “Nenhum homem é uma ilha”, ensinou o poeta e religioso inglês John Donne, já lá vão alguns séculos, mas que  ensina agora a realidade travestida de pandemia de covid-19, de quarentena obrigatória, de isolamento e que, talvez nos ajude a compreender que a vida humana é convívio. Para o ser humano viver é conviver. É justamente na convivência, na vida social e comunitária, que o ser humano se descobre e se realiza enquanto um ser moral e ético. Ou talvez de outro modo todo o ser humano seja  uma pequena ilha de conhecimento ladeada por um imenso oceano de ignorância .Mas, na realidade nesta vida que vivemos nenhuma pessoa é uma ilha, mas algumas pensam que  são pequenos arquipélagos e, talvez por isso vivemos de tal modo obcecados com o que se passa para lá da janela que já nem sequer vemos a janela. Mas ela está lá! Tal como a nossa casa, as mesas, …os amigos. As pequenas coisas. Por vezes damos connosco a pensar nas pequenas coisas mais importantes da vida. Como dizia José Saramago:” Somos todos uma mera ilha desconhecida. Partilhamos o mesmo oceano, mas não partilhamos os mesmos rumos. Somo-nos desconhecidos. Não nos conhecemos a nós próprios, muito menos aos outros.

A este propósito, sendo agora o “tempo do regresso às aulas”, li que uma  “das futuras medidas do governo para o próximo ano lectivo; a partir de um certo ano de escolaridade, (penso que ainda a definir), os alunos deverão ter a responsabilidade de desinfectar ao fim do dia a mesa de trabalho de forma a que desempenhem  um papel activo no impedimento da propagação do vírus, não substituindo o papel do auxiliar de educação, mas sim, de ajudar a minorar uma questão que a todos diz respeito.”

Sobre isto acabei de ler o seguinte comentário a esta notícia;

"Filho meu não vai limpar nada porque não tem essa obrigação, as auxiliares que limpem porque ele não é empregado de ninguém".

Apetece-me contar-vos uma história que será de memória comum a muitos de nós.

No tempo dos meus pais, dos vossos pais, no meu tempo, as crianças que podiam ir à escola (poucas, porque na aldeia a abundância era inexistente), muitas delas iam descalças. Depois de terem acordado com as galinhas e de ajudarem os pais na lida da casa, de alimentarem o porco e os patos, as galinhas  que viviam no pequeno quintal, depois de ajudarem a mãe a dar o pequeno almoço aos irmãos mais novos, depois e só depois, descalços, iam por terra batida para a escola e em bandos como pardais, sem vigilância parental. Os pais tinham que ir bem cedo para os campos guardar gado, cavar de sol a sol. Já tinham a responsabilidade de cuidar, mas também a liberdade de usarem as asas.

A mochila dos Pokémons, Frozens, Patrulha Pata e o caraças era um cinto das calças que apertava os manuais escolares que imaculados e religiosamente poupados que nem peças de colecção, serviriam mais tarde para os irmãos mais novos.  As crianças já tinham responsabilidades de dar valor ao que tinham.

Na sala de aula tinham a responsabilidade de se portarem bem, de cuidarem do escasso material escolar disponível, de respeitarem a professora. Caso não acontecesse, estava prometida uma galheta pelas trombas o as mãos ardiam com aquela régua de madeira com nozes.

Tinham a responsabilidade de respeitar.

Muitas dessas crianças só tinham uma muda de roupa e sabiam que teriam que a poupar, não havia dinheiro para mais, a família era pobre e essa consciência já estava bem definida.

Hoje em dia alguns pais não querem que os filhos tenham responsabilidades (julgam  os mesmos demasiado "preciosos" para que o simples acto de limpar uma mesa seja somente a obrigação de alguns).

São estes burgueses de cocó armados ao pingarelho que acham que os filhos são pequenos príncipes (mesmo que tenham 18 anos). Os outros,  são os serviçais.

Um dia os "príncipes" serão os futuros cagões que perante a velhice dos pais, simplesmente desaparecem, porque não têm estofo para lidar com responsabilidades.

Se acho que antigamente tudo era bom? Não acho.

Se acho que antigamente é que era bom? Não acho.

Se acho que os pais de antigamente pecavam pelo exagero? Também acho.

Se acho que antigamente se respeitava mais o próximo? Ah... isso acho.

Não sou ninguém para opinar sobre como devem criar os vossos filhos, mas isto é só bom senso, gente!

Nada mais que isso. Bom senso.

Vou repetir; bom senso.

Porra pá, só vão pedir aos vossos filhos que passem um pano por cima de uma superfície plana que poderá estar contaminada e que, no pior dos cenários, poderá levar ao falecimento de alguém.  É assim tão descabido?

E já agora de ganhar cinco dedos de testa, ide. "

Desconheço autoria deste texto in facebook “Tocaprender Centro de Estudo e Ocupação de Tempos Livres “( O texto não é meu... mas concordo plenamente... )

segunda-feira, setembro 14, 2020

 Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer.”(Albert Camus)

 
Vivemos momentos nestes tempos que não são os nossos , e que a incerteza é o novo normal, essa mesma incerteza que nos leva a focar-nos no aqui e agora e que apela, ao silêncio e ao saber escutar. O que é mais curioso que muitos falam no “vírus silencioso”. Mas o vírus teima em ficar, como que a lembrar-nos que o importante são as pessoas. No geral somos repetitivos por natureza, não gostamos de mudar os nossos hábitos e, talvez por isso a nossa grande resistência a qualquer mudança, sendo que a mudança nunca é dolorosa, pois apenas a nossa resistência à mudança é dolorosa. Como disse o papa Francisco: “É preciso perder o espírito de resistência à mudança. Para mudar o mundo, é preciso fazer bem a quem não tem possibilidades de retribuir.”

 A este propósito com a chamada “pandemia da covid19” veio ao de cima “o problema dos velhos nos lares”, mas não sejamos hipócritas a pandemia apenas destapou uma realidade escondida há muito tempo, sendo que se não fosse a cegueira do mundo, talvez os que, no presente não são velhos tivessem tempo para pensar que um dia chegará a sua vez em qualquer “casa do empacotamento”. A pandemia confina, fecha, mas pode abrir os olhos. É certo que os olhos só vêem o que querem, mas se olharem e virem no presente o futuro aprenderão muito. A cegueira é a arma dos donos destes tempos muito agitados. Outros tempo virão. O que mais tem o tempo é tempo; os velhos, não. Os velhos não são “os que têm mais idade” mas os que têm “idade a mais”. Como disse Julian Barnes: Quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.”

 É neste contexto, e está na “moda” potenciado pela “imprensa que temos” onde a “tentação” é apontar o dedo aos governantes, às autoridades de saúde, aos municípios, às administrações dos próprios lares e à segurança social por todas as situações, desde as mortes até às das más condições que se vive nos lares. Claro que todos eles têm aqui colossais responsabilidades, no entanto parece-nos inexplicável que , esta tragédia não tenha inspirado reflexões nem criticas a todos aqueles que consideramos os responsáveis por estas situações: os familiares que depositam  e abandonam os velhos nos lares, como no passado o faziam nos “asilos”! Porque  nunca se questiona a responsabilidade moral de quem pôs os velhos nos lares nem se aponta o egoísmo das famílias como causa principal dessas tragédias?

 É evidente que haverá sempre situações em que o recurso a lares será a única ou a melhor solução para muitos casos. Mas não são esses que estão em causa, até porque não representam a maioria. A maioria dos velhos vão para lares porque os familiares não estão disponíveis para sacrificar minimamente o seu estilo de vida, desculpando-se com a distância ou com os afazeres profissionais para justificar o alheamento de situações que também deveriam ser do seu conhecimento e a sociedade passou a considerar esta solução como moralmente aceitável.    Hoje os mais velhos estão mais sozinhos do que nunca nos lares que os acolhem. Precisamos, pois, de políticas mais consistentes para a terceira idade, de instituições mais confortáveis para os utentes, de profissionais mais habilitados para cuidar dos mais velhos e de uma família que olhe para os idosos como um bem precioso que deve merecer todos os cuidados, relembrando o que foi dito por Søren Kierkegaard: “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.”

Sempre temi os últimos anos de vida, no sentido que lhe foi dado por Augusto Cury, “não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la”, talvez porque esta “modernidade líquida suspensa” na juventude despreza os mais velhos, porque os filhos há muito deixaram de ter disponibilidade para cuidar dos pais, porque as instituições sociais vocacionadas para amparar a terceira idade mais parecem deteriorados sótãos para onde se atiram velharias que raramente revisitamos. Como escreveu no seu livro , “ANOS”, Annie Ernaux, faz-nos relembrar que por vezes, não construímos sequer  uma recordação de um «nós», num relato sobre o que fica quando o tempo passa: “Tudo se apagará num segundo [...] Nem eu nem mim. A língua continuará a pôr o mundo em palavras. Nas conversas à volta de uma mesa em dia de festa seremos apenas um nome, cada vez mais sem rosto, até desaparecermos na multidão anónima de uma geração distante.”

quinta-feira, setembro 10, 2020

 "No meio das dificuldades escondem-se as oportunidades."( Albert Einstein)

Estes tempos chamados “da pandemia de Covid-19” assusta a todos, mesmos os que dizem que não se assustam. É que todos podemos  ser infectados. Ninguém está isento. Não importa qual seja sua posição na vida, o seu status, o seu poder ou a sua popularidade, o vírus ainda pode sempre “agarrá-lo”. Esta possibilidade evoca um sentimento primordial de fragilidade e vulnerabilidade que a todos atinge. Esta frase atribuída a Albert Einstein que, titula esta “crónica”, pareceu-nos ser  o lema ideal para repetir-se quando o desânimo, após vários dias de urgência de confinamento nos “visitou”, no reconhecimento que tudo isto nos causa alguma ansiedade e até frustração. Como disse Oliver Wendell Holmes : “O mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direcção para a qual nos movemos.”

Talvez nesta altura seja útil esclarecer, que a forma como escrevo é aquilo que sou, ou melhor dizendo naquilo eu me tornei, sinto uma enorme vontade de encontrar palavras que possam exprimir numa leitura precisa do que sinto e do que penso, no fundo dirão que “quero ser visto na minha coerência” ou como dizia Jean Paul Sartre:O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.”

No entanto, para mim coerência é uma coisa muito mais séria e profunda – acima de tudo é viver de acordo com os valores em que acreditamos –com verdade, honestidade, integridade e lealdade. No fundo ser para os outros como somos para nós mesmos. E é claro que podemos por vezes meter “a pata na poça” e não chegar, nem de perto, nem de longe, às metas, aos objectivos que nos propomos, mas acreditamos que é essa honestidade, integridade e lealdade para  connosco próprios e com o conteúdo dos “sermões” que lhes damos, que vai ajudar a que se definam como pessoas. E, para terminar, regresso aos medos, que li em qualquer lado, confessados no “ Questionário de Proust”, onde o  dramaturgo Ricardo Alves confessa: “O medo de já não ter desejos, de não sentir inquietação. O medo de cumprir as ânsias e os desejos desaparecerem.” Que a coerência, a inquietação e os desejos não desapareçam nunca! Ou no dizer de Max Weber:“O homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível.”

E, nada melhor como “termino” destas “palavras de hoje”, como este poema  de José Jorge Letria.” Esta ausência não foi por nós pedida,/este silêncio não é da nossa lavra,/já nem Pessoa conversa com Pessoa,/com o feitiço sempre imenso da palavra./Este tempo só é o nosso tempo./porque é nossa a dor que nos sufoca;/e faz de cada dia a ferida entreaberta;/do assombro que esquivando-se nos toca,/Esta ausência é dos netos, dos filhos, dos avós,/é a casa alquebrada pelo medo,/é a febre a arder na nossa voz,/por saber que o mal a magoa em segredo,/Este silêncio é um sussurro tão antigo;/que mata como a peste já matava;/vem de longe sem nada ter de amigo/,com a mesma angústia que nos castigava,/Esta ausência é uma pátria revoltada,/que se fecha em casa sempre à espera,/que a febre não a vença nem lhe roube,/a luz mansa que lhe traz a Primavera,/Esta casa somos nós de sentinela,/à espera que a rua de novo nos console,/e que festeje debruçada à janela,/a alegria que só nasce com o sol,/Esta ausência mais tarde há-de ter fim,/por nada lhe faltar nem inocência;/que se escute o desejo de saúde,/anunciando que vai pôr fim à inclemência,/Que se abram as portas e as janelas,/que o medo, derrotado, parta sem destino,/por ser esse o sonho colorido/que ilumina o riso de um menino."(José Jorge Letria - 20 de Março de 2020)

terça-feira, setembro 01, 2020

“NÃO ENCONTRO DEFEITOS. ENCONTRO SOLUÇÕES. QUALQUER UM SABE QUEIXAR-SE!“ (Henry Ford)

“NÃO ENCONTRO DEFEITOS. ENCONTRO SOLUÇÕES. QUALQUER UM SABE QUEIXAR-SE!“ (Henry Ford)

 Todos sabemos que o dia tem 24 horas, o Sol aparece, há quem diga“nasce” todas as manhãs, a água ferve a 100 graus e nós….talvez por isso se diga, ou pense que a “nossa busca espiritual é satisfazer as saudades da alma”. Mas é bom relembrar que a vida pode ser linda quando valorizamos as pequenas coisas que já temos! E sentimo-nos muito bem, estivermos onde estivermos porque acreditamos que as coisas acontecem cada uma a seu tempo.  Nestes tempos, que não são os “nossos tempos” e nas actuais circunstâncias, ninguém se pode dar ao luxo de acreditar que seus eventuais problemas,  vão ser solucionados pelos outros. Cada um de nós tem a responsabilidade de ajudar a levar a sociedade onde vive para o rumo certo. Ter boa vontade não é o suficiente, é preciso envolvermos de forma activa e participativa.” Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criámos.”(Albert Einstein)

O que assistimos nestes tempos é que, no geral, grande parte das pessoas, por motivações diversas, que muitos deles nem sequer sabem quais são, o problema das pessoas é que só querem ver em tudo problemas, antes de qualquer solução, fixam-se nos erros mais do que no que está certo e vivem mais o passado do  que o presente. Ora, vejamos o que está a  acontecer!

Os professores queixam-se, os médicos queixam-se, os enfermeiros queixam-se, os funcionários públicos queixam-se, todos apontam erros, todos clamam “que vergonha” , isto é “abrimos a televisão, lemos os jornais ou vemos as redes sociais, equase toda a gente só sabe é queixar-se? E soluções? Parece que todos  acordaram agora para a situação vergonhosa de muitos lares de idosos. Lamentam as mortes, mas não lamentam o abandono a que muitos foram votados depois de ali despejados como se de lixo se tratasse. Leio as críticas e fico sem perceber nada. Afinal os professores querem ou não que as escolas abram? Os médicos e enfermeiros querem ou não que os hospitais voltem à normalidade?

Agora também está na “moda” criticar uma “festa politica” como o “apocalypse” que a todos infectará, mas nada vejo sobre os “encontros jantares” de um “ideário politico” cuja profecia é proibida na nossa constituição da república, todos querem retomar a ida aos campos de futebol, à prática de todos os desportos, realização de touradas e concertos públicos etc etc. Reclama-se, protesta-se, exige-se, lamenta-se, diz-se tantos disparates que dava para encher milhares de “estádios de futebol”. Mas …soluções, há alguém que apresente algumas?

Como muitos dizem, errar é humano! Sim, todos nós cometemos erros em algum momento de nossas vidas. É impossível fugir de falhas, elas fazem parte de nós e só nos resta aceitá-las. Além dos nossos próprios erros, também precisamos lidar com os erros de outras pessoas. Estamos passíveis a errar mas também vulneráveis a sermos magoados e decepcionados. Então, se temos que conviver diariamente com isso, porque não tirar experiência e sabedoria dessas situações?

Será que acham que é com “ladainhas” para  inglês ver que controlam a epidemia?   Cada um rema de acordo com as suas conveniências, pessoais, politicas, sociais ou simplesmente ignorantes, mas todos temos a vantagem de criticar o facto da “embarcação” não seguir o rumo por si “desejado” e hoje o que interessa de facto é criticar.. ganhar uns “likes” e “matando a fome a egos famintos”. É por isso que os macacos andam confusos! Tirar conclusões precipitadas é eficaz se há grande probabilidade de que as conclusões estejam corretas e se o custo de um ocasional erro for aceitável.” (Daniel Kahneman)

 De uma coisa já tenho a certeza….... quanto mais confusão, quanta mais desinformação, quanta mais “estupidez espalharmos” mais difícil será é  retomarmos as nossas vidas para um patamar que as aproxime do que eram antes da pandemia, porque tenho a convicção que nada mais vai ser igual. Se para uns é a situação perfeita para jogadas politicas que a partidarite inibe de não usarem (bloqueados como se de um vírus se tratasse) para outros não passa de mera parvoíce e uma ignorância assustadora. “Se o problema tem solução, não tenha “dores” de cabeça, porque tem solução. Se o problema não tem solução, não tenha “dores” de cabeça, porque não tem solução.” (Provérbio Chinês)

sábado, agosto 29, 2020

 “É melhor fazer pouco e bem, do que muito e mal.” (Sócrates- o filósofo)

Li em qualquer lado que “a vida não era a mesma depois que se penetra no reino das palavras”. A realidade é que  depois de um tempo sozinho, cada coisa ganha um novo nome e cada momento vem com um novo sentido. Temos que ter a percepção de que as pessoas que se importam connosco são as que estão cá até hoje. Sentimos que o tempo é cada vez mais longo, que  as distâncias são cada vez mais curtas, tudo isto leva-nos a ter de continuar a encontrar coisas para estarmos ocupados. Umas das grandes lições que estes tempos do “covid19” nos deu é que não somos, como por vezes julgávamos, infalíveis. Hoje, todos temos a percepção de que somos muito mais frágeis do que pensávamos. Como há dias disse um amigo meu “o Covid19 tem sido para muitas e muitos de nós o grande medo das nossas vidas.

Um dos sintomas da sociedade moderna que todos nós já encaramos um dia, é que somos todos “muito bons a criticar”, mas poucos temos a coragem de apresentar alternativas.  Quando ouvimos que uma atitude vale mais que mil palavras, em geral deixamos essa frase passar como um  sintoma de “fala barato”, mas se pararmos para pensar, ter atitude faz toda diferença na nossa vida! Expressar a gratidão com palavras e atitudes e a nossa vida mudará muito de modo positivo. Como disse o Dalai Lama: ”É durante as fases de maior adversidade que surgem as grandes oportunidades de se fazer o bem a si mesmo e aos outros.”

 Ao contrário do que dizem “os profetas da desgraça” que por aí proliferam, hoje vivemos mais tempo e melhor. E no futuro  podemos talvez prever, ou será esse o nosso sonho, de que será muito mais o hospital ao domicilio,  os  cuidados continuados de saúde ao domicilio, isto é tentar cuidar das pessoas na sua própria casa. Acima de tudo devemos respeito aos nossos velhos, a maior parte da vezes, tão maltratados em lares, muitas vezes pagos a peso de ouro, e que apostar no vale-tudo é um sinal das desgraças que podem chegar. Há que pensar no modo como hoje a sociedade no seu conjunto trata os velhos, levando-os para as diversas despensas para “os empacotar” . Não quero ficar por aqui nestas palavras “talvez fortes e injustas para alguns”, mas responsabilidade é colectiva, é da sociedade que estamos a criar e cujas consequências fingimos não ver ou até não saber! Quando próximo, fingimos estar longe; quando longe, fingimos estar próximo.”(SUN TZE)

Há homens e mulheres que de tudo se servem para atingir os seus fins, o que até pode não o fazer por  mal,  mas quando para atingir um fim enveredam por certas condutas tornam-se tão ou mais rasteiros que os repteis. Há momentos da nossa vida que julgamos estar acima de tudo e de todos, não ouvimos nada, nem ninguém e seguimos em frente como nada conseguisse parar-nos nos nossos objectivos. E, a certa altura, caímos que nem tordos! Tinha razão o filósofo Heraclito, há dois milénios: “não é possível um homem banhar-se duas vezes nas águas do mesmo rio, porque já não é o mesmo rio nem o mesmo homem”.

Hoje já temos a noção de que a epidemia de Covid-19, na sua intensa estranheza e nas consequências nefastas que temos presenciado, forçará uma inevitável e até necessária alteração substancial no nosso modo de viver, dado que todos nós, ao nascer, somos, como naturalmente constatou Hannah Arendt, recebidos pelos mais velhos que nos protegem e educam. É esta a única harmonia possível, na vida de todo o ser humano – uma estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro. O horizonte parece cinzento e incerto e só nos resta sobreviver e ultrapassar esse ano que para nós, nesta altura “parece perdido”, ou talvez assim não seja?.

 Todos nós elegemos uma forma de agir em relação às circunstâncias da vida, e, em qualquer tempo histórico, os homens escolhem entre as possibilidades que se lhes apresentam. Ainda bem que o mundo está a acordar e a perceber que investir na saúde é investir na segurança e na estabilidade. “A vida não cessa. A vida é fonte eterna e a morte é jogo escuro das ilusões. O grande rio tem seu trajecto, antes do mar imenso. Copiando-lhe a expressão, a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas, também recebe afluentes de conhecimentos, aqui e ali, avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade, antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria.” (Chico Xavier)

 

 

sábado, agosto 22, 2020

“Se choras porque perdeste o Sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas.“(Rabindranath Tagore)

“Se choras porque perdeste o Sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas.“(Rabindranath Tagore)

Todos nós conhecemos palavras que se tornam estigmas, ou por condenações ou por simples atitudes, mas que se fixam como tabuletas na testa de quem subitamente é forçado a viver com elas. Conviver todos os dias com palavras e os seus significados, podem ainda deixar de fora a ideia, na premissa de que as palavras são todas iguais. Para muita surpresa nossa não o são. “Por vezes, acontece acordar com uma palavra mais na vida, e falamos dela como se fosse uma palavra mais, mas rapidamente a ilusão desaparece - como se na verdade alguma vez tivesse existido.”( Não Respire de Pedro Rolo Duarte)

Há quem diga que a maior riqueza  duma pessoa é perder todos os preconceitos instalados na vida. São as pessoas que tem que se acostumar e adaptar aos “novos modos de viver” e aprender que não são esses “tempos” que se adaptam a nós,  mas nós que temos que nos adaptar a eles.  Temos que saber reconhecer os acontecimentos de um conjunto de dolorosas circunstâncias de uma pandemia, que a todos nos obrigou a soluções atípicas para podermos continuar em frente com as nossas vidas. Ninguém sabe ao certo o que nos espera nas próximas semanas e nos próximos meses. “Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são”. Com esta frase do poeta castelhano Miguel de Cervantes não estou nem quero realçar a palavra “medo” e  defender que devemos deixar de temer tal perigo. Nada disso. Já escrevi outras vezes e vou repetir: ter medo é absolutamente normal. O que eu pretendo e  quero é passar a mensagem de que devemos agir e avançar apesar do “medo”. Precisamos reverter a influência negativa do temor para alcançarmos resultados positivos. Como disse Augusto Cury: “Os problemas nunca vão desaparecer, mesmo na mais bela existência. Problemas existem para serem resolvidos, e não para perturbar-nos.”

Se algum dia renasceres para a vida como eu renasci, e teres a consciência que será uma “nova oportunidade que te é dada para viver a vida” aprende com o passado e não tentes copiar a vida de ninguém. Faz as tuas escolhas, conscientes, responsáveis, mas ousadas e loucas como sempre quiseste fazer. Na senda dos teus  sonhos, vai fazendo o que sempre quiseste fazer, faz a arte que inspira, escreve tudo o que transpira e embrenha-te no que sentires que é de valor. Procura estar em paz contigo, ser uno, autêntico, verdadeiro, tu és o teu melhor amigo e confia na vida e nas oportunidades que ela te dá. Todos devemos ter prioridades na vida, no desejo, e no coração, mas nunca devemos  fazer coisas que nada têm a ver com esse propósito. “Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.”(Miguel Torga)

Mas relembro que a vida não é formatada, a vida não segue nenhum padrão, a vida acontece a cada um como tem de acontecer. Por isso podemos afirmar, a todos os que querem realmente mudar, que não tenham medo de o fazer, não é preciso muitos planos, tudo estudado ao pormenor sem deixar espaço ao imprevisto, porque da surpresa vêm muitas vezes a oportunidade e a alegria de poder fazer um dia aquilo que sempre sonhaste e não ousaste acreditar. E termino nesta imensa solidão, que poderia dizer que, talvez com lágrimas que podem ser de tristeza, de raiva, de instabilidade emocional ou de alegria. As lágrimas são úteis para nos libertarmos ocitocina e endorfinas que aliviam a dor física e emocional, como lembram Ana e Isabel Stilwell, numa das suas crónicas. “Decididamente as minhas favoritas são as lágrimas de alegria. Já reparaste que são as mais difíceis de explicar a uma criança? Hoje em dia choro mais nas chegadas do que nas partidas, e nos filmes comovo-me muito mais com a bondade do que com a crueldade e a violência. Deve ser da idade!”

terça-feira, agosto 18, 2020

“A curiosidade é a última paixão das pessoas velhas.”(Paul Charles Bourget)

“A curiosidade é a última paixão das pessoas velhas.”(Paul Charles Bourget)

Há dias um amigo observou-me que uma das grandes mudanças no comportamento,  em geral, das pessoas, nestes tempos que não são os nossos, foi e é que  hoje temos muito mais curiosidade em conhecer os rostos por detrás das máscaras. Por isso, os observamos com muita atenção. Concentramo-nos nos olhos e descobrimos que a maioria de nós os tem muito bonitos! Cada olhar tem o seu segredo. Por isso se diz que os  olhos são as janelas da alma.  Não nos podemos espantar ao ver neles o nosso reflexo! Habituamo-nos a viver a vida que temos e levamos tempo a perceber se nos falta alguma coisa.

Todos nós temos a percepção de que a vida é um percurso cheio de altos e baixos, e que se torna mais fácil quando temos um verdadeiro amigo ao nosso lado. Saber valorizar cada momento da vida ao lado de um alguém especial é poder cativar cada vez mais o sentimento que um sente pelo outro………..na percepção de que não há momentos altos nem momentos baixos, mas somente “momentos”, e que  é a  forma como se vivem esses momentos, que é determinante do nosso sentir de “viver a vida” e que  depende do facto de se ver ou não a oportunidade que eles nos trazem. Como nos ensinam os textos Judaicos, “o bem estar na vida obtém-se com o aperfeiçoamento da convivência entre os homens.”

 A vida é feita de momentos, e há pessoas

que fazem desses momentos, momentos  de entusiasmo pelo facto de não só serem especiais neste mundo tão vasto, mas também pelo facto de sabermos aproveitar e viver ao máximo essa oportunidade, e no qual nos sentimos que somos tão pequenos, mas unidos pela amizade, somos gigantes… ….e, talvez  seja por isso, que todos nós queremos viver esses momentos. Como disse Simone Weil : “A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude). 

Nós renascemos para a vida no dia em que percebemos que nos foi dada uma nova oportunidade de viver. Acreditar que podemos fazer mais do que nos ensinaram que podíamos fazer porque só assim faz sentido realmente viver.   Como diz a voz popular “com saúde seremos donos da nossa própria vida!”, mas não  nos  pode servir de consolação ao pensar que alguém na nossa situação está pior do que nós nos sentimos! Assim sendo talvez seja o momento para relembrar que alguém disse que, “conhecer os outros é mera curiosidade, mas  conhecer-se  a si mesmo é uma virtude. O que mais me surpreende na humanidade, são os "homens". Porque perdem a saúde para juntar dinheiro. Depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... ... E morrem como se nunca tivessem vivido.”(Dalai Lama)

sexta-feira, agosto 14, 2020

The surest sign of wisdom is constant serenity.” (Montaigne)

 The surest sign of wisdom is constant serenity.” (Montaigne)

 We should be as sensible as adults, but curious as children. We must reflect like the elderly, but explore the world like teenagers It is necessary to have serenity and lucidity to know how to wait. We have reached a point where, thanks to democracy in the 20th century, “humans who consider themselves modern” think that all points of view, even if diametrically opposed, are equivalent and respectable. That is, as if reality did not exist, as if the simple fact that we thought something made it true. This multiplicity of perspectives may seem like a precious asset, but, in fact, it leads to a generation of people who cannot agree on anything ... they don't even evolve in society, as we know there is a hatred machine impossible to stop, which remains active and whose model is followed worldwide by parties, football clubs, social movements and everything that lives from polarization and division. "... and I don't align with that….!" Above all, be true to yourself, and from there it will follow, as surely as the night follows the day, that no man can be false. ” (Shakespeare)

In these times that we are now passing by, there are some “enlightened ones” who I consider to be shameless and despicable beings, who “seem” not to know on what planet these creatures live, who debit about everything, but without realizing anything? And, are they like this because they understand that others think they are more intelligent if they are “militants” of the “down-down” brigade? In reality it never has, nor does it have anything positive that can contribute to society, and are only able to survive in a context of scorn and curse? There are those who do, and there are those who speak. I am as always with the first ……! As Bernard Shaw said, "It is impossible to progress without change, and those who do not change their minds cannot change anything."

May we have the courage to change the things that can be changed, serenity to accept the things that cannot be changed and wisdom to distinguish one from the other. Being patient and knowing how to wait is not an easy task, but you must learn to deal with that time. It seems that, in general, we have more to do in a single day, so that we may not be able to conclude it, so we are always in a hurry. As writer John Maxwell said: "The pessimist complains about the wind, the optimist expects him to change and the sage arranges the sails."

However, there is no other way out when it comes to waiting, because it is part of human life, and practically all of us are waiting for something to live in a world of turmoil. The search for a moment of peace and tranquility in this chaotic world is more than necessary. Here I feel like paraphrasing Socrates, (the philosopher) "I know I know nothing, because everything I know denounces how much I don't know and reveals my ignorance."

“O sinal mais seguro da sabedoria é a constante serenidade.”( Montaigne)

 “O sinal mais seguro da sabedoria é a constante serenidade.”( Montaigne)

 Devemos ser sensatos como os adultos, mas curiosos como as crianças. Devemos reflectir como os idosos, mas explorar o mundo como os adolescentes É preciso ter serenidade e lucidez de saber esperar. Chegámos a um ponto em que, graças à democracia do século XX, “os humanos que se consideram modernos” acham que todos os pontos de vista, ainda que diametralmente opostos, são equivalentes e respeitáveis. Isto é, como se a realidade não existisse, como se o simples facto de pensamos uma coisa a tornasse verdade. Esta multiplicidade de perspectivas pode parecer um trunfo precioso, mas, na verdade, conduz a uma geração de pessoas que não conseguem chegar a acordo sobre nada …nem sequer evoluem na sociedade, como sabemos há par aí nas redes sociais uma máquina de ódio impossível de parar, que continua activa e cujo modelo é seguido mundo fora por partidos, clubes de futebol, movimentos sociais e tudo o que vive da polarização e divisão."...e eu não alinho nisso….!“Acima de tudo sê verdadeiro para  ti mesmo, e daí se seguirá, tão certo como a noite segue o dia, que homem nenhum poderá ser falso.” (Shakespeare)

Nestes tempos que agora passamos, aparecem por aí uns “iluminados” que considero seres sem vergonha e desprezíveis, que “parecem” não saber em que planeta vivem tais criaturas, que debitam sobre tudo, mas sem nada perceberem? E, são assim porque entendem que os outros acham que são mais inteligentes se forem “militantes” da brigada do “bota-abaixo”? Na realidade nunca tem, nem apresentam nada de positivo que possam aportar à sociedade, e só são capazes de sobreviver num contexto de escárnio e maldizer? Há os que fazem, e há os que falam. Estou como sempre estive com os primeiros……! Como disse Bernard Shaw:“É impossível progredir sem mudança, e aqueles que não mudam suas mentes não podem mudar nada”.

Que tenhamos coragem para mudar as coisas que podem ser mudadas, serenidade para aceitar as coisas que não podem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras. Ser paciente e saber esperar não é uma tarefa fácil, mas é preciso aprender a lidar com esse tempo. Parece que, em geral, temos mais o que fazer num só dia , de tal modo que talvez o não possamos concluir, por isso, andamos sempre apressados. Como disse o escritor John Maxwell: “O pessimista reclama sobre o vento, o optimista espera que ele mude e o sábio organiza as velas.”

Entretanto, não há outra saída quando o assunto é espera, porque ela faz parte da vida humana, e praticamente todos nós estamos a esperar alguma coisa vivemos num  mundo de agitações. A busca por um momento de paz e tranquilidade nesse mundo caótico é mais que necessária. Aqui apetece-me parafrasear Sócrates, ( o filósofo) “eu sei que nada sei, pois tudo o que sei denuncia o quanto não sei e revela a minha ignorância.”

terça-feira, agosto 11, 2020

Só os olhos que vêem para além do que se vê.”(Mário Dionísio- poeta português)

“Só os olhos que vêem para além do que se vê.”(Mário Dionísio- poeta português)

Não tenho a pretensão de pensar que “isto só me acontece a mim!” Quando vamos de carro ou na rua de óculos escuros e máscara, já tivemos de acenar muitas vezes a conhecidos para que nos  reconhecessem. Tempos novos, a nossa imagem mudou. E, claro, também já tirámos fotografias  de máscara prontos para o mundo, que pusemos no Instagram.! Hoje conhecemos a nossa imagem e devolvemo-la ao outro, aos outros. À espera dos ecos. Há quem diga que nós somos donos do nosso próprio destino, cabe a nós decidirmos como queremos que ele seja escrito. Pois como disse Séneca:” Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.”

Como diz o ditado popular os nossos olhos apenas vêem o que a mente está preparada para compreender, ou que teus olhos possam ver o que os meus te querem  mostrar? Sempre fui assim, não me lembro de pensar de outra maneira, de só conseguir lembrar-me dos bons momentos,......pois a vida é feita de momentos, aqueles momentos em que as palavras se tornam desnecessárias, porque acabam com a magia do silêncio. Como disse Nicolas de Chamfort.”De todos os que não tem nada a dizer,os mais agradáveis são os que fazem isso em silêncio.”

Por vezes, ou quase sempre precisamos de praticar e ter consciência dos pensamentos que vem à mente, para observar como nos estamos a sentir, e o que esses pensamentos nos estão a dizer, como eles vão influenciar o nosso dia, são momentos que temos que passar, uns bons e outros menos bons, mas todos contribuem para a nossa formação e aprender a viver a vida, sem nunca esquecer o mais importante: Nada nesta vida acontece por acaso, absolutamente nada. Por isso, temos que nos preocupar em fazer a nossa parte, da melhor forma possível. A vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser. “É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momentos e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem souber ver.”(Gabriel Garcia Marquez)

quinta-feira, agosto 06, 2020

“Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.”(Albert Einstein)

 “Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.”(Albert Einstein)

 Creio que muitos de nós, com raras excepções, somos levados a pensar, em certos momentos da nossa vida, que somos “imortais”-  não temos a percepção de que de modo algum “somos eternos” – e que em poucos anos passamos ao rol dos “esquecidos” ou até “inexistentes”. Na realidade todos somos mortais e todos somos  iguais, com os mesmos sonhos, desejos, medos e frustrações, no entanto, cada um de nós  tem o seu lema de vida. Nestes tempos, que não são os nossos, e diante de uma ameaça invisível e traiçoeira, que pode levar de nossa presença tantos entes queridos, fica na boca o amargo sabor da impotência. Percebemo-nos como verdadeiramente somos: finitos e pequenos.

No entanto ao contrário do que disse Platão: “não espere por uma crise para descobrir o que é importante na  sua vida,” temos de reconhecer que fomos surpreendidos por estes “tempos” que nos fizeram “olhar” para as coisas simples que nos escapavam, pois a  criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. Estes são os tempos e os momentos de muitas oportunidades. Winston Churchill disse uma dia. ”Nunca desperdice uma boa crise…já que um optimista vê uma oportunidade em cada calamidade. Um pessimista vê uma calamidade em cada oportunidade.

 Vivemos uma nova fase da nossa vida, e quer queiramos quer não a forma como aprendermos a viver nesta fase pode ditar o nosso futuro, seja qual for o ponto de vista e em múltiplos aspectos não será do nosso inteiro agrado. Temos que admitir que uma das grandes lições, deste período “chamado distanciamento social”, foi o de dar mais valor às pessoas de quem gostamos e valorizar mais aquilo que gostamos de fazer. No dizer de Bob Marley:”Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.”

Ao contrário de outras ameaças colectivas, como as climáticas, esta tem a particularidade de nos fazer sentir muito rapidamente e com grande proximidade as consequências de não sermos todos os dias participantes disciplinados no seu combate. A solução final para esta crise vai basear-se na ciência e tomará a forma de uma terapêutica ou de uma vacina. Até essa solução chegar, sabemos o que é necessário fazer para mitigar a crise, estamos mais bem preparados e mais informados, é indispensável usarmos o conhecimento que adquirimos. Como disse o padre Antonino Vieira: “Somos o que fazemos. Nos dias em que fazemos, realmente existimos; nos outros, apenas duramos.”


domingo, agosto 02, 2020

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não salvo a mim” (Ortega y Gasset, 1914/1966

Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não salvo a mim” (Ortega y Gasset, 1914/1966

 Chegámos a uma altura em que ninguém nos dá uma resposta credível a um grande número de questões, é que já estamos algo baralhados e por vezes somos levados a pensar que este chamado novo vírus, talvez não seja nada de novo, ou nem sequer é um coronavírus, ou até talvez estas situações que são geradoras de pânico sejam infundadas, mas não temos duvidas que todas estas situações são alimentadas por aqueles que estão interessados e que assim procuram “ganhar” milhões!  “Conhecimento vem, mas a sabedoria tarda. A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.”(Albert Einstein)

Nesta matéria como noutras procura-se sempre arranjar culpados. Sempre assim foi, está na “génese humana” o tiro ao alvo é o desporto favorito dos adivinhos de ontem. Na verdade isto tudo está relacionado ao que na psicologia e  se “chama de projecção”. Ou seja, atribuímos o erro aos outros, para não nos responsabilizarmos por nada! No caso desta pandemia, em que o vírus viaja de um lugar para o outro, a tendência é que as pessoas façam isso. Aquela pessoa que vem de fora é vista como uma ameaça. Isso para a economia psíquica é fácil, eu acuso alguém e aí livro-me do problema, a responsabilidade é do outro. Como dizia Almada Negreiros “não sou  forte em ciência, de modo que tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. Será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo”.  A tudo isto e por mais confusa ou absurda que possa parecer, temos que juntar agora a “teoria da panspermia” que ainda não foi refutada e causa fascínio, principalmente naqueles que gostam de ficção científica e já agora, os defensores dessa teoria dizem que no “principio, a vida biológica tinha a forma de bactérias e de vírus e chegou à Terra vinda de cosmos distantes”  (Anotamos que um dos muitos defensores desta teoria,  Francis Crick, conquistou um prémio Nobel (juntamente com James Watson e Maurice Wikins) pelas suas descobertas sobre a estrutura molecular do DNA.)

 Mais uma vez vemos as coisas que não são tão simples como parecem ser, e isto não é  sobre ser inconsequente, mas compreender que nem tudo na vida precisa fazer sentido. Nós queremos as nossas vidas de volta! Mas temos  de saber, aceitar e entender que isto é a vida, não podemos ter medo de arriscar, e as experiências estão aí para serem vividas. Todos nós somos iguais e mortais, com os mesmos sonhos, desejos, medos e frustrações, e cada um de nós tem o seu lema de vida. Como argumentou o líder sul-africano Nelson Mandela :“Aprendi que coragem não era a ausência de medo, mas o triunfo sobre ela. O corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que vence esse medo ”.  

 

 

 

sábado, agosto 01, 2020

“A única história que temos é a nossa e ela não nos pertence.”(Ortega y Gasset)

“A única história que temos é a nossa e ela não nos pertence.”(Ortega y Gasset)

Por vezes temos um “entendimento” que a vida é sobre os outros e não sobre nós. E talvez por isso, passamos tanto tempo na vida dos outros que por vezes até nos esquecemos de cuidar da nossa própria vida, e quase sem darmos por isso a nossa memória fica entorpecida entre as brumas do último devaneio, num estado de espirito

de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens ."Pois tudo que é verdadeiramente grandioso, como o universo, não tem começo. Aparece, de repente, na nossa frente, sem se anunciar, como se tivesse existido sempre ou caísse do céu." (Boris Pasternak, Doutor Jivago)

Quando escolhemos aceitar uma coisa como verdadeira…. nenhum facto poderá contradizer esse modelo mental e percepção do mundo, que entretanto, nem sempre corresponde à realidade, trata-se de uma escolha que nada tem a ver com factos!. Acreditamos em algo e isso torna-se real, mesmo que não o seja. É por isso que devemos escolher bem o que queremos acreditar, pois é nessa escolha de ideias que vamos poder moldar as nossas decisões." Qualquer um pode contar as sementes numa maçã, Mas não podemos contar as maçãs numa semente. “(Robert H. Schuller)

 Todos devíamos ter em mente que temos um “actual inimigo comum” que é o vírus (Covid19) e que este não é o momento para outras “disputas” nomeadamente as politicas. A minha opinião, para não dizer convicção, é que a vida é mesmo assim, com altos e baixos e muitas “conquistas” e “derrotas” pela vida fora, mas o segredo é mesmo nunca desistir, devemos sempre escutar e até aceitar o conselho dos outros, mas nunca desistir da nossa própria opinião. Como disse o Engº António Guterres: “ou lutamos juntos ou somos derrotados. Estamos todos no mesmo mar, mas enquanto alguns navegam em iates, outros agarram-se aos destroços”.

A pandemia de “covid-19” é  um acontecimento extremo para o qual não nos preparámos. A nossa incapacidade de pensar prospectivamente é directamente proporcional à incerteza e vulnerabilidade que estamos a sentir. Chegados aqui perguntarão a razão porque decidi hoje abordar este tema? A resposta mais simples é porque na verdade sinto uma enorme inquietação e alguma “instabilidade psicológica”, ligada a esta situação de “viver nos tempos do coronavírus”, e notar que há muitas perguntas sem resposta, ou as respostas são tão contraditórias  que já não sabemos em que “cientistas” acreditar, ou até se as “estatísticas” são assim tão rigorosas? Do que devemos ter medo? A isto tudo há que juntar todas as informações “falsas” e a questão essencial sem resposta, como pode neste mundo de hoje, uma verdadeira tragédia transformar-se, literalmente diante dos nossos olhos, numa “história” que “parece” estar na moda e em relação à qual não vemos o seu fim….? Hoje estamos às cegas, esperando um regresso a uma nova normalidade que não sabemos qual é …mas que temos a nítida sensação que já nada será como dantes.  O que talvez já saibamos é que vamos querer, primeiro, a saúde pública e não a saúde do lucro, mas logo depois empregos dignos e não precários, casas para habitar e não para lucrar, educação universal e gratuita não elitizada. Vamos ainda querer viver num mundo de igualdade, não de exploração; de cooperação entre os povos, não de guerra ou competição. Vamos querer o ambiente e não a sua destruição, o tempo e não a submissão, a sociedade — não o poder ou populismo. Ambicionaremos outras coisas das quais nem sequer nos lembrámos ainda. Ao vírus do medo contrapomos este: o da esperança, para o qual, ao contrário da covid-19, esperemos que não haja vacina nem imunidade. “A lição é a seguinte: nunca desista, nunca, nunca, nunca. Em nada. Grande ou pequeno, importante ou não. Nunca desista. Nunca se renda à força, nunca se renda ao poder aparentemente esmagador do inimigo.” (Nunca se Renda -Winston Churchill)

 


terça-feira, julho 21, 2020

“Podemos vender o nosso tempo, mas não podemos comprá-lo de volta.” (Fernando Pessoa)


Podemos vender o nosso tempo, mas não podemos comprá-lo de volta.” (Fernando Pessoa)

Temos que ter essa noção do tempo, e um dia, quando tudo isto passar, porque há-de seguramente passar, dificilmente haverá símbolo visível mais marcante da pandemia de covid-19 que vivemos do que as máscaras de protecção social, que se tornaram parte integrante das nossas vidas de um dia para o outro, e em todo o planeta. “Não vamos voltar à antiga normalidade nos próximos tempos. Repito: não vamos voltar à antiga normalidade nos próximos tempos”.( Tedros Adhanom, director-geral da Organização Mundial de Saúde)
A História não é feita para julgar, mas sim para aprofundar e compreender. É essa a boa norma no que diz respeito ao conhecimento do passado. E é nesse sentido que essas máscaras serão a arqueologia deste período. Nada simboliza melhor este tempo que vivemos que aqueles pedaços de pano que nos cobrem o rosto quando saímos de casa. Mas a máscara vai ficar também como símbolo dos debates, dúvidas e contradições que se viveram nestes tempos (quem já esqueceu a discussão sobre se se devia ou não usar, que chegou a envolver a Organização Mundial de Saúde?).
Como nos ensinou nos seus sermões o padre António Vieira, tem de se combinar com o tempo e que “não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba …… “A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas.”
Na realidade e no geral ainda nem percebemos bem o que é que perdemos. É certo que alguns perderam a paciência para estar em casa, outros perderam quase a sanidade mental com a gestão do teletrabalho, da telescola dos filhos e mais um mar de “telechatices” por resolver, outros perderam a conta ao número de pessoas que viram morrer, muitos perderam os abraços e os afectos das pessoas de quem mais gostam, demasiados perderam o emprego, muitos perderam o tecto e perderam a capacidade de dar de comer à sua família, enquanto outros perderam as vidas sozinhos nos hospitais, longe dos seus, directos para baixo da terra sem a devida homenagem às suas memórias. O Tempo passa rápido mas deixa as  suas marcas para que nós possamos relembrar alguns momentos de nossas vidas que não voltam mais. Como disse Buda:” Não viva no passado, não sonhe com o futuro, concentre a mente no momento presente.”
São momentos em que temos consciência em que o tempo, tal como o conhecemos, passa velozmente sem parar.  Queremos que ele pare! Talvez não seja bem uma paragem, mas sim a suspensão do tempo que corre…e termos tempo para mudar dentro do que recebemos. Entre o pause e o play, o filme das nossas vidas mudou. O luto do que ficou para trás existirá sempre nas nossas memórias como parte de nós, mas só há uma forma de ultrapassar: aceitar o que perdemos e olhar para o que ainda temos. Já vimos lutos em todas as partes do mundo. Não há fórmulas mágicas, mas  fomo-nos apercebendo que tão importante como valorizar a vida é aceitar a morte. É um desafio por vezes quase perturbador em que nos perdemos aos rodopios em filosofias entre duas premissas que parecem ser contraditórias, mas que precisamos que sejam complementares: valorizar a vida e aceitar a morte. Valorizar o que temos e aceitar o que perdemos. “Deixa partir o que não te pertence mais, deixa seguir o que não poderá voltar, deixa morrer o que a vida já despediu...O que foi já não serve... é passado, e o futuro ainda está do outro lado, e o presente é o presente que o tempo quer te entregar.” (padre Fábio de Melo)